22/09/2009

APLICAÇÕES PRÁTICAS DA GENÉTICA-PARTE I

Em geral, a ambição de qualquer criador é conseguir fixar a qualidade das suas linhagens e eliminar os seus defeitos. Como consegui-lo? Com algumas noções de genéticas suficientes, o problema consiste em pô-las em prática.

ELIMINAÇÃO DAS TARAS

A base de qualquer programa de selecção é o conhecimento do genótipo dos animais. Antes de mais nada, tem de se verificar se não há nenhuma tara nem defeito grave, pois mesmo que um exemplar pareça perfeito, não se pode excluir dessa eventualidade.
Como é evidente, a eliminação das taras implica a sua identificação. Sabemos que a relação predominância-recessividade não é universal na sua forma mais simples. É mesmo bastante rara. Mas o conhecimento deste princípio é já um primeiro passo para a compreensão da genética. Por sorte (se assim se pode dizer), há muitas taras que se devem a um par de alelos recessivos e cuja expressão está sujeita a essa lei fundamental. Portanto, esses genes podem ser identificados e eliminados com bastante facilidade.

Tomemos o caso de uma doença hereditária, a atrofia progressiva da retina. Sabe-se que um gene recessivo só pode expressar em presença de dois alelos recessivos. Por conseguinte, se um exemplar apresentar essa tara é certo que os seus dois progenitores eram portadores dela. O conhecimento desta lei poderia resolver bastantes litígios, pois quando se dá esse género de acidente numa ninhada, o proprietário da fêmea reprodutora deita as culpas para o macho reprodutor (se este não for o seu), e vice-versa.

Mas essas desgraças são uma vantagem, na medida em que permitem localizar o gene "mau".
Infelizmente é imperativo retirar progenitores e progenitura antes do tempo, pois a transmissão de taras escondidas no genótipo de híbridos (portadores sãos) é dificilmente controlável e pode ter consequências catastróficas.

Em Inglaterra, alguns criadores recorreram a um método radical- embora bastante traumático- para eliminar a atrofia progressiva da retina que se havia disseminado entre os Setters irlandeses e uma maneira que muitos consideraram irreversível.
Recorreu-se a um macho cego que sofria dessa tara para acasalamentos experimentais, a fim de identificar os exemplares portadores do gene.
Segundo a lei de Mendel, uma cadela sã e não portadora (homozigótica) só pode engendrar exemplares isento da tara, dado que esta só se manifesta quando os dois progenitores são portadores. Em contrapartida, nascem afectados metade dos cachorros de uma fêmea na aparência sã mas portadora da tara (heterozigótica) que tenha sido coberta por um macho afectado e, portanto, forçosamente portador. Assim, no quadro desse acasalamento, chamado back cross, o nascimento de um só cachorro com a tara fornecia a prova irrefutável de que a sua mãe era portadora.
Este método apesar de muito cruel por implicar o sacrifício dos cachorros com a tara, revelou-se extremamente benéfico, pois permitiu salvar o setter irlandês em Inglaterra.

Há outro procedimento menos expeditivo que o back cross, embora também menos seguro e rápido, para conseguir identificar os genes indesejáveis, a consanguinidade. Este método permite revelar se não se camuflaram taras no genótipo de portadores sãos, já que a consanguinidade tem como defeito aumentar a proporção de exemplares homozigóticos e reduzir a dos exemplares heterozigóticos. Nalguns locais, a consanguinidade é um tema tabu. A maior parte das pessoas imagina que um casal consanguíneo produz automaticamente cães com taras ou doentes. No entanto, a consanguinidade não cria genes malignos nem provoca taras; limita-se a revelá-las, quando existem (caso em que se declaram sempre, mais tarde ou mais cedo).

O criador preocupado em melhorar a qualidade dos seus produtos deverá ocupar-se, numa primeira fase, de eliminar as taras e em seguida os defeitos leves. Depois terá de se dedicar a fixar as qualidades das suas linhas, procedendo para isso a acasalamento bem planeados.

4 comentários:

Ana Cavaca disse...

Olá Paula,
Este tema da genética, embora cativante, parece-me ser um bocado complicado no que diz respeito à sua aplicação prática para conseguir linhagens perfeitas e sem taras, ou estou enganada?

Maria Paula Ribeiro disse...

Ana Cavaca,

Talvez te esclareça um pouco mais o post a seguir. Contudo devemos ter noção que as aplicações genéticas são laboriosas e morosas...

Claro que defendo sempre a sua aplicação baseada em princípios que sejam para melhorar.

E a perfeição não existe, pelo menos no nosso plano evolutivo pois estamos numa "casa de aprendizagens".
Beijinhos

Joel Pinto disse...

Até nos animais se busca a perfeição... faz-me lembrar aquele louco que tinha a mesma mania mas aplicável à raça ariana, remember??

Jinhos

Maria Paula Ribeiro disse...

Joel,
Remember, mas esse "louco" não queria retirar "taras"...
Apenas criar um ideal de raça, sem olhar a consequências... e esse genética eu sou plenamente contra!

Jinho grande

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