20/02/2009

GUINEFORT, O GALGO SANTO

Nas suas missões, São Roque e São Cristóvão contaram com a ajuda de cães fiéis, que são mencionados nos textos sagrados. Mas a Igreja nunca reconheceu nenhum cão santo.

UM GALGO CHAMADO GUINEFORT



Isto aconteceu há muito, muito tempo na região de Dombes, perto de Lyon. Um dia, conta-se, o senhor o castelo de Neuville e sua esposa tiveram de se ausentar por algumas horas, deixando o seu filhinho de poucos meses sozinho no castelo e à guarda do galgo do senhor.
E eis que uma serpente se introduz no quarto da criança. Ao ver que o réptil se aproximava do berço, o cão, que estava agachado atrás dele, atacou-a. Então deu-se uma luta violenta, com a serpente silvando e o cão ladrando; o menino, acordado pelo barulho, começou a chorar. No ardor da refrega, a criança caiu para baixo do berço, ficando no entanto em perfeito estado. O cão, coberto de feridas e de sangue, matou a serpente e depois continuou de guarda à criança.

O TRISTE FIM DE UM HERÓI

À última hora da tarde, a ama deu com esta cena e, sem procurar nem ir ver debaixo do berço, desatou a chorar desabaladamente pelo recém-nascido; quando a mãe chegou, fez o mesmo que a ama: pôs-se também a chorar. Nisto, o senhor entra no quarto e, cheio de cólera, mata o cão.
Só mais tarde, ao endireitar o berço, é que encontraram o menino, dormindo tranquilamente no meio da desordem. O senhor do castelo não teve de se esforçar nada para reconstruir o drama e reconhecer a coragem e lealdade do seu fiel cão. Guinefort, seu galgo, foi enterrado com todo o respeito que merecia a sua proeza.
Com o tempo, o castelo caiu em ruína e a Natureza recuperou os seus direitos sobre a propriedade, pois assim trabalha a justiça divina. Os camponeses dos arredores habituaram-se então a ir em peregrinação à campa de Guinefort, cujo acesso se mantinha em segredo. Guinefort fez milagres... e converteu-se em São Guinefort em toda a região.

O CULTO DE SÃO GUINEFORT

O culto de São Guinefort era bastante estranho, como testemunhou Étienne de Bourbon, o frade dominicano que descobriu essas práticas quando era inquisidor na região. Em 1260 fez uma pesquisa, que relata nos seguintes termos:
«Numa aldeia fortificada a uma légua de distância deste lugar, as mulheres, acompanhadas pelos filhos, vão procurar uma velha que lhes ensina a maneira de actuar, fazer oferendas aos demónios e invocá-los, e que as conduz a esse lugar. Quando chegam, oferecem sal e outras coisas; penduram nos ramos os cueiros das crianças e espetam um prego nas árvores que cresceram ali; passam a criança nua por entre os troncos de duas árvores; a mãe, que fica de lado, leva o filho e atira-o nove vezes à velha, que está do outro lado. Enquanto invocam os demónios, conjuram os faunos que há no bosque de Rimite para que, segundo dizem, apanhem a criança enferma e débil que lhes pertence; e, depois de a levarem, devolvê-la-ão gorda e luzidia, sã e salva.
«Feito isto, as mães infanticidas recuperam os seus filhos e põem-nos nus junto da árvore, em cima da palha do berço, e com fogo que levaram acendem de cada lado da cabeça duas velas que medem uma polegada, e fixam-nas sobre o tronco. Depois retiram-se até as velas acabarem de se consumir, de modo a não ouvirem os vagidos das crianças, nem as verem. As velas que se consomem desta maneira queimam por completo e matam várias crianças, segundo se conta. Quando as mães tornam para junto dos seus filhos, se os encontram vivos levam-nos até às águas rápidas de um rio próximo, chamado Chalaronne, onde os mergulham nove vezes; se se salvarem e não morrerem ali mesmo logo a seguir, é porque têm umas vísceras muito resistentes.»

Evidentemente, Étienne de Bourbon tentou proibir este estranho culto. Mas, tal como demonstra a apaixonante investigação realizada por Jean-Claude Schmitt e descrita no seu livro Le Saint Lévrier, o culto de Guinefort prolongou-se até muito depois do século XIII. Aparece mencionado em 1632, 1826, 1877, 1886, 1902 e mesmo em 1940, quando uma avó se lembrou de ir ao bosque de Saint-Guinefort para conseguir a cura dos seus netos.

PAVIA, CLUNY, SENS, BRUJAS...

Mais estranhas ainda são as outras onze versões da história de Guinefort (clique aqui) que Jean-Claude Schmitt descobriu na Europa Ocidental e que remontam à mesma época. Em Pavia, São Guinefort era humano e estava crivado de setas como São Sebastião; protegia os homens da peste; a sua festa celebra-se a 22 de Agosto. Em1082 foi feita à abadia de Cluny uma doação de uma «fazenda de San Guinifortius». Em 1131, na mesma abadia de Cluny faz-se menção a um altar dedicado a São Guinefort. Em algumas igrejas de Sens, Brujas e outras cidades francesas ainda se celebra o culto de São Guinefort. E até Montargis, famosa pelo seu cão, há no castelo uma capela subterrânea que lhe foi dedicada, não se sabendo se se trata do galgo santo de São Guinefort de Pavia.

Aspecto de um galgo, lévrier ou greyhound

14 comentários:

Samsara disse...

Olá MaryPaula
Continuas a encantar-nos com estas histórias, que nem sempre têm um final feliz, mas são muito interessantes. Fiquei a pensar se algum bebé se salvaria daquele processo.
Beijinhos e toca a sambar!

Maria Paula Ribeiro disse...

Olá Sam,

Realmente, os tempos antigos eram duros.

Boa samba para ti na Madeira!

Beijinhos e bom fim de semana.

adelaide figueiredo disse...

Ola Paula

Esta história do Santo Guinefort é interessanta. Já conhecia a parte do berço e da serpente mas com todos estes pormenores desconhecia.

Bom Carneval, diverte-te e beijinhos.

Adelaide Figueiredo

Maria Paula Ribeiro disse...

Boa noite Adelaide,

Espero que tudo de corre bem, e um bom Carnaval para ti também.

Beijinhos e bom fim de semana.

Ana Cavaca disse...

Olá Paula,
Mais uma história interessante e bonita...eu já conhecia...mas é sempre bom ler...
Bjs e bom Carnaval amiga

Maria Paula Ribeiro disse...

Bom dia Ana Cavaca,

:-) E sabes mais alguma que queiras que eu coloque?

Beijinhos e bom domingo

maria de fátima disse...

Olá Maria Paula gostei de ler esta história assim como as anteriores.Beijinhos e bom Carnaval.

Maria Paula Ribeiro disse...

Olá Mimi,

Ainda bem e bom Carnaval para ti também.
Beijinhos

Fada Moranga disse...

Mas que bela historia! E eu que adoro galgos!! Sao maravilhosos... lindos! Nobres!

Gosto muito de ca vir ler-te mas acontece-me uma coisa chata - por causa do fundo preto e letras brancas, fico a ver tudo as riscas!!! :-)) Quase fico tontinha!

Beijos***de Fada e bom Carnaval!

Maria Paula Ribeiro disse...

Olá Fada,

:) e rápidos, que nem gazelas, lol

Quanto a veres tudo as riscas... humm
Vou experimentar outra cor de texto então. Não te quero tontinha!

O meu Carnaval, vai ser a trabalhar. A minha agenda não tinha o dia como feriado e marquei 1 tosquia e tenho 1 cirurgia!!!

Mas não é de tripa ou barriga, um pequeno tumor cutâneo a retirar!

Sabes que foi sempre um feriado que me faz confusão. Nos meus tempos de Gália, o dia de carnaval não é feriado, era passado, fazendo crepes na escola e depois em casa,em família outra vez crepes(havia sempre algumas que caíam no chão).

Bom Carnaval
Beijinhos

Lucy disse...

Paula,
Estas histórias com os cães são curiosas e interessantes.

Vim dizer que apaguei todos os meus seguidores e blogues a seguir. Nunca me caíu bem isto.

Estarei sempre presente.
Um beijo,
Lucy

Maria Paula Ribeiro disse...

Olá Lucy,

Por mim tudo bem.
A tua presença aqui será sempre uma honra.

Beijinho muito grande

denise finotti disse...

Olá
Tenho um site sobre Galgos,
o www.galgos.com.br , e gostaria de publicar esta história, você permite?
Temos muitos artigos e notícias no site, passe para dar uma olhada.
obrigada
Denise

Maria Paula Ribeiro disse...

Bom dia Denise,

Com todo o gosto. Fique à vontade.
Obrigado pela sua visita.

Já lá vou ver o seu site

Abraço e dia feliz de Páscoa

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