27/01/2009

AS PERTURBAÇÕES DEVIDAS À ANSIEDADE DO CACHORRO - PARTE I

A ansiedade é um estado patológico sempre invalidante para o animal, tanto no plano relacional como no plano orgânico. Actualmente, são cada vez mais frequentes os diagnósticos de estados de ansiedade no cachorro, e esta situação é muito preocupante.

Embora não se possa tratar deste tema sem abordar certos aspectos evocados por ocasião de uma patologia concreta (por exemplo, a síndrome de privação), aqui centrar-nos-emos na génese e na prevenção das perturbações relacionadas com a ansiedade.


QUATRO PATOLOGIAS

Em matéria de ansiedade, no cachorro podem definir-se quatro entidades patológicas bem caracterizadas e cujas designações são suficientemente indicativas da origem das perturbações.
Assim, podem descrever-se as estereotipias de imposição, a ansiedade de separação, a ansiedade de privação e a enurese do cachorro no treino.
É evidente que as causas da ansiedade do cachorro estão sempre relacionadas com um dos três tipos de circunstâncias seguintes: insuficiência de estímulos durante o desenvolvimento, ruptura dos laços de proximidade com o substituto materno ou situações de aprendizagem coercivas.

PARA EVITAR A PASSAGEM AO ESTADO PATOLÓGICO


No plano afectivo o cachorro é extremamente frágil, sobretudo entre as seis e as oito semanas. Durante este período, suporta muito mal a solidão e esta pode causar graves distúrbios emocionais ao cão jovem.

Antes de escrever os sintomas destas diferentes patologias convém insistir nos mecanismos que fazem passar o cachorro ao estado de animal psiquicamente patológico em cada caso.
Como todos os pequenos mamíferos, o cachorro estabelece laços chamados de vinculação com a sua mãe ou com o substituto materno humano. Os primeiros laços são de natureza afectiva e, nesse campo, os que se tecem com um substituto materno humano parecem ser mais fortes, por vezes, devido à própria demanda afectiva da pessoa em questão, que encontra imediatamente uma resposta favorável no cachorro. Por outro lado, as relações de vinculação têm uma grande importância social, pois graças a elas (que por sua vez são também o resultado) é que se produz o «imprinting», ou seja, a identificação do semelhante através da imagem da mãe. Assim o cachorro é muito frágil no plano afectivo; por conseguinte, qualquer carência ou ruptura desencadearão violentas desordens emocionais. A permanência da relação deve ser total durante as primeiras semanas (entre seis e oito) e o contacto físico sempre possível, para que o cachorro possa sentir-se seguro directamente. A presença constante da mãe também estabiliza quando começa a explorar o meio que o rodeia (a partir das três ou quatro semanas), pois constitui o ponto de referência indispensável em todas as tentativas de progressão para o exterior.

Durante os seus primeiros meses, o cachorro tem de poder sentir a presença permanente da sua mãe. Esta tranquiliza-o em todas as circunstâncias e, quando o pequeno manifesta certas veleidades de independência, ela continua a ser a sua indispensável guia.

Fica claro, por conseguinte, que a pessoa que deixa o cachorro de seis a oito semanas só durante todo o dia lhe provocará uma crise afectiva muito violenta, se não tiver havido uma aprendizagem inteligente. A fragilidade afectiva e emocional tornam o cachorro muito sensível a qualquer agressão directa, se esta não ocorrer num contexto hierárquico claro. É tão recomendável corrigir sem contemplações o cachorro de oito semanas que procure apoderar-se da comida, como é nefasto castigar o animal que cometeu um erro durante a aprendizagem - ir preso pela trela, chamada, limpeza (no sentido humano) - porque isso provoca nele uma reacção de angústia muito patogénica. Há que insistir em dois pontos que se colocam em particular a propósito dos castigos e das recompensas, assim como da aprendizagem da limpeza; tratando-se de um cachorro, seja qual for a educação, esta deverá ser feita através da brincadeira e, no que se refere mais especificamente à limpeza, deve ser feita de maneira positiva e não negativa, isto é, deve mostrar-se ao jovem animal o que ele deve fazer e não castigá-lo (muitas vezes tardiamente) quando cometeu um erro. Submetido a uma angústia afectiva, o cachorro apresentará mais tarde fortes reacções emocionais, tanto comportamentais (inibição, estereotipias, agressão por medo directa ou redirigida) como fisiológica (principalmente micção e/ou defecação por medo, às vezes vómitos), e o seu equilíbrio psíquico ficará rapidamente comprometido.

Embora o cachorro deva ser tratado com delicadeza, isso não quer dizer que pode fazer todas as travessuras possíveis sem nunca ser posto no seu lugar. A sua fragilidade não lhe dá direito de ir meter o nariz em todo o lado.

Parte II: ansiedade de privação; enurese e estereotipia de imposição

18 comentários:

Ana Cristina disse...

bem Maria Paula, gostava de meter um panfleto com isto nas caixas de correio de Portugal e arredores.

Maria Paula Ribeiro disse...

Ana Cristina,

Seria soberbo se Úrano me presenteasse com o euromilhão e tornar o teu desejo, concretizável, :-)
Bj

Teresa Marcelino disse...

Venho com frequência ler o que escreves, mas raramente comento, pois não´é uma área que me seduza muito.

Não que não goste de animais, adorava ter um cão, mas compreendo que um apartamento não é o local mais apropriado. Gato? Pois, mas o cheiro intenso das necessidades e os cuidados constantes (limpeza, higiene, alimentação, saúde...), são desculpas a que me vou agarrando. Já é dificil a rotina diária de uma casa com dois filhos, a profissão, os hobbies, etc... Tentei os peixes, mas acabam todos por morrer (carma deles ou meu, não sei!)

Mas fico fascinada com tudo o que escreves e com o paralelismo que há entre os "universos" humano e animal.

Beijinho

bruna :) disse...

Oi miga Paula!

Mt bom, tou a tornar-me repetitiva, mas gosto muito!
A tua forma de transmitir as coisas é excelente!!! ;)
Quero mais, força!

beijocas

Maria Paula Ribeiro disse...

Teresa,

Defendo SEMPRE a sensatez que os donos têm de ponderar se podem ou não ter um animal de companhia.

Por isso, não és obrigada a ter seja o que for.

Obrigado pelo incentivo e presença
Beijinhos

Maria Paula Ribeiro disse...

Bruna,

Também terás mais dentro em breve. ete tema está na recta final. :-)
Obrigado
Beijinhos

António Rosa disse...

Paula

Ficas aqui com um conjunto notável de serviço público.

Parabéns.

Maria Paula Ribeiro disse...

António,

Meu grande amigo,

Uma palavra de ordem que prezo e amo: SERVIR!

E sempre que eu puder, sejam quais forem as circunstâncias. :-)

Obrigado.
Beijo

Lucy disse...

Paulinha, desculpa 'as perturbações' no teu ritmo de informações tão úteis, mas escolhi-te para te a proposta seguinte:

«Marcelo Novaes http://olugarqueimporta.blogspot.com/ passou-me a seguinte proposta:

1-Agarrar o livro mais próximo;
2-Abrir na página 161;
3-Procurar 5ª frase completa;
4-Colocar a frase no blog;
5-Repassar pra 5 pessoas.»

Se quiseres, podes dar mais uma voltinha a este carrossel...

O Marcelo é um poeta de mão cheia.

Um beijo,
Lucy

Maria Paula Ribeiro disse...

Lucy,

Já fui ver o blogue :-)

Beijinhos

Ana Cavaca disse...

Paula minha querida amiga,
Aprendemos muito com os teus "post", e como ao longo da vida já tive alguns cachorros bébés tento sempre identificar o que tu contas com as minhas vivências...
Bjs

Lucy disse...

Paula,
Era para 'alinhares' na proposta da tal corrente literária, mas não faz mal, o carrossel que gire para outras bandas.(lol)

Um beijo,
Lucy

Maria Paula Ribeiro disse...

Ana Cavaca,

Deverás fazê-lo assim, SEMPRE

De que nos valem os livros (a teoria) se não for acompanhada com vivências e observações? :-)
Beijinho grande

Maria Paula Ribeiro disse...

Lucy

Amiga... :-( não devo ter entendido, não! aiiiii

Beijinho grande

adelaide figueiredo disse...

Bom dia Paula

Desculpa ter chegado atrasada á aula mas de facto ontem andei noutras visitas :) mas cá estou para aprender contigo.

Obrigada pela lição é sempre bom vir aqui.

Beijinhos

Adelaide Figueiredo

Maria Paula Ribeiro disse...

Adelaide,

Tarde ou cedo, o que importa é que estejas cá. :-)
Beijinho

Astrid Annabelle disse...

Maria Paula, voltei para aprender um pouco mais!
Uma delícia de leitura para quem ama os animais.
Estou realmente agradecida.
Um beijão...
Astrid

Maria Paula Ribeiro disse...

Astrid,

Madrinha linda, e eu eternamente agradecida. :-)

Beijinhos XL ;)

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